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  • Foto do escritorAngélica Figuera

Fronteiras do Corpo




Falamos muito.


Pensamos que sentimos muito.


... e agimos sem saber que, muitas vezes,


nosso movimento está descompassado com o ritmo que nos conecta à vida.


 

Assim, vivemos uma cultura completamente DESCORPORIFICADA.

A maior parte do tempo estamos intelectualizando a experiência, criando conceitos e ideias que justifiquem as nossas relações, o que sentimos e a nossa presença no mundo.


Esquecemos que nosso corpo também tem raízes que nos conectam com o céu e com a terra.


Sim.

Talvez o corpo seja o caminho para sairmos do automatismo e voltarmos à vida.


Mas não me refiro a esse corpo que os anatomistas legitimaram no Ocidente, senão a um corpo vivo e complexo. Um corpo que pensa, que sente e que age simultaneamente, que integra em si o dentro e o fora.


Olhar para nosso corpo é desenhar um mapa vivo da nossa experiência, é entrar em contato com o que sou.


Eu sou meu corpo, diz Stanley Keleman.

Por tanto, a forma (o desenho) do meu corpo está diretamente vinculada à forma como me relaciono comigo, com os outros e à maneira como percebo o mundo.


É lógico que um corpo colapsado vai ter ideias colapsadas.

E que um corpo muito estruturado, com músculos densos, vai produzir outra qualidade de pensamentos, bem diferentes aos pensamentos de um corpo que tende a ser inchado e mais macio.


Não existe corpo certo ou errado.

O assunto está em reconhecer se estou satisfeita com a minha condição atual ou se preciso mudar algo para me sentir melhor, mais conectada .


Perguntar-me COMO me organizo corporalmente quando penso, sinto e ajo, é uma maneira de desenhar um mapa vivo da minha experiência.


Como está a superfície do meu corpo (a minha pele) quando sinto amor, quando quero estar perto de alguém ou quando quero ficar só?


Nascemos das relações.

A cada contato surge uma nova experiência.

A vida do corpo não é uma imagem fixa.

É um criar e desfazer contínuo de realidades,

que nos diz respeito à natureza impermanente da existência.


Em 1974 a fotógrafa Claudia Andujar, com ajuda de Carlos Zacquini, apresentou canetas hidrográficas para um grupo de indígena, da etnia Yanomami, com quem já tinha contato e intimidade.

Claudia pediu para eles desenharem cenas da vida cotidiana e personagens que achassem importantes.

Conheci este trabalho numa exposição de Claudia Andujar chamada A Luta Yanomami, feita no Instituto Moreira Salles no ano 2018, em São Paulo.


Fiquei impressionada com os desenhos, porque eles mostram que o corpo é muito mais amplo e misterioso do que a nossa mente pode imaginar.

Estes desenhos mostram que a percepção da vida não tem limites.


No meu país, Venezuela, também há muitas aldeias Yanomami.

Penso que, assim como o corpo, as fronteiras geográficas também são algo vivo, em constante movimento, que nosso corpo também é terra, e que através dele podemos resgatar a experiência original de sabermos que também somos natureza.




















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